quarta-feira, 3 de abril de 2013

Fumaça se despede do T-27 Tucano com escrita no céu de Pirassununga

A cidade sede da Esquadrilha da Fumaça, Pirassununga (SP), foi presenteada com uma homenagem na manhã desta segunda-feira, dia 1º de abril.

Acima da Academia da Força Aérea (AFA), os pilotos acionaram a fumaça branca e escreveram no céu: “Obrigado T-27 Tucano”.
A escrita pode ser acompanhada até pelos moradores do município de Pirassununga. Além da homenagem, a cidade também foi presenteada com as últimas passagens que chamaram a atenção dos moradores.

A iniciativa marcou o início da troca das aeronaves T-27 para A-29 Super Tucano. O retorno das demonstrações ainda não tem data prevista.

( Fonte - EDA ) 











TEXTO - THIAGO SABINO 

Pois é Tucano...

Depois de tanto tempo, 30 anos mais precisamente, acabou.

Três décadas. Trinta anos. Saiu da prancheta como uma versão turboélice do T-25, mas, no meio do caminho, tornou-se um outro avião. Mas ainda assim, é irmão do T-25, pois ambos são filhos do mesmo pai. Conforme foi ganhando penas, conseguiram perceber que, já era um avião espetacular lá nos idos de 1982, 1983. Aos poucos, outros ovos de Tucano foram chocados no ninho de São José dos Campos, e tão logo ganhastes o nome militar de T-27, ainda não tiveste um nome.

Nome este que, mereceria delinear sua personalidade. Muitos nomes fáceis eram sugeridos. Falcão, Gavião, Águia, enfim: sugestões fáceis, mas que, em nenhuma delas tinha o casamento perfeito entre nome e criatura. Num concurso feito no ninho das águias, foi-lhe dado este nome. Nome este que, não foi dado por um aviador, por incrível que pareça, e sim por um intendente. Este cadete pensou no nome TUCANO, pássaro de origem brasileira.

Mas, TUCANO? Tucano?

Tucano é um pássaro mal balanceado, com um nariz desproporcional, asas mínimas, não é um "voador", e não é um pássaro caçador. Mas, tinha a sua imagem e semelhança, um avião de nariz grande, e com a sua brasilidade, ganhou exatamente a sua personalidade. Casou perfeitamente o nome, com o avião.

Logo que nasceu, procuraram lhe dar já um aspecto para o qual não fora projetado: Queriam que fosse um pássaro ágil, que fizesse coisas, que um pássaro normal não faz. Nossa esquadrilha havia sido desativada, e precisava o quanto antes, de um pássaro que pudesse lhe fazer ganhar os ares novamente. Juntou-se, a possibilidade de usar esse pássaro brasileiríssimo, com a reativação dessa esquadra , que há muito sempre fez brilhar os olhos de quem gostou muito de aviação. Só que, havia um detalhe: nossa esquadrilha, usava um mito, chamado de tê-meia. Substituir um mito, normalmente, só outro mito.

Mas, deu certo. Colocaram-lhe as cores vermelha e branco - as quais casaram muito bem - e lhe entregaram a 6 ases, que souberam extrair o máximo das suas pequenas asas, e seu enorme nariz.

Como pôde, um sucesso destes, com tão pouco tempo, ser absolutamente perfeito. O pássaro teve suas asas guiadas por grandes ases. Casamento perfeito. De novo!

Teve condição de , com suas diminutas asas, atravessar o oceano atlântico, e mostrar a outros povos, o que esse pequeno passarinho brasileiro, poderia mostrar, para águias européias e norte-americanas. Mostrou ao mundo, uma cambalhota, inventada por um desses ases, e que pouquíssimos aviões tinham condições de fazer. Cambalhota essa de nome complicado, quase indescritível. Ah, mas não importa... o fato é que fazia-a com maestria, aparentava descontrole, mas sempre após duas ou três cambalhotas - com sorte - acabava didaticamente com o nariz pro chão, apontado pro eixo de onde vinha.

O eixo do seu bico não gostava dessa cambalhota, afinal, um nariz grande desses, nunca sofrera tamanho esforço. Mas, você sempre fez, e nunca achou ruim.

Voou pela américa do norte, voou pelo caribe, pela europa, enfim, por muito muito chão desse mundão. Pelo seu país, aumentou mais ainda a quantidade de localidades que, seu antecessor, o mito, visitara em priscas eras.

Chegou ao ponto de superar a quantidade de demonstrações feitas pelo mito. Caminhava firmemente seguindo os passos do mito.

Mas, devagarzinho, começou a sentir o peso da idade. Disseram ao passarinho brasileiro que ele iria aguentar muitas e muitas cambalhotas. Mas, seus ossos não aguentaram. Numa apresentação, sua diminuta asa foi-se. Como sempre foi muito bem conduzido - e nesta oportunidade, não deixara de ser - mostrou ser capaz de voar até mesmo com uma asa só. Era demais. Demais em todos os sentidos. Já não tinha mais condições de aguentar com seus pequenos ossos alados, as cambalhotas, e o desenho de várias e várias manobras feitas, só por ele! Não aguentou mais. Era hora de repensar, o que fazer com este legítimo representante do país do inventor do avião.

Pouco tempo depois, optou-se por ter suas pequeninas asas reforçadas. E como se não bastasse, teve suas penas trocadas, com as cores brasileiras. Muita gente quis que o pequeno tucano, mantivesse as cores antigas. Nostalgia é algo que as pessoas se apegam, como forma de não se desapegar de bons momentos. Mas o passarinho ficou bonito, de asa reforçada, e com mais uns 10, 12 anos de vida a mais. Ganhou um raio em seu corpo, como o mito, e lentamente foi também tendo seu nome confundido com a palavra mito.

Sim, tornou-se um mito. Ao ajudar a completar os 60 anos do grupo de pássaros que o ajudou a se transofrmar numa figura mitológica, deu o seu quinhão, fez a sua parte. Muito, meu amigo, muito do que você fez , foi neste grupo de pássaros, conhecido como Esquadrilha da Fumaça, e cujos homens contribuiram - e muito - para a sua atual condição, de se assemelhar, ao seu antecessor.

Faltava pouco para se tornar mito, como o tal tê-meia. Agora, não falta mais. Teve sua aposentadoria combinada, e será substituído pelo seu irmão mais novo, mais forte, de semelhante fisionomia. Pássaro do bico grande, só que mais forte, e que carrega no DNA, toda a tradição que esse pequenino passarinho forjou por 30 anos.

Ainda irá voar mais um tempo, coisa duns anos aí, ensinando muitos cadetes a voar , dando-lhes chance de vida quando estas não mais existirem para outros aviões.

Mas sua graça, sua leveza combinada com seu pequenino tamanho, e sua agilidade aglutinada com sua aparente condição desengonçada, jamais serão igualadas.

Neste atual momento, pequeno passarinho bicudo, você voa pela última vez ao público, mostra pela última vez ao público o quão é ágil, altivo e destemido. Mostra que, ser brasileiro, foi uma qualidade, e que pra ser um grande pássaro, sua principal característica não reside propriamente no seu tamanho. Te vi na sua estréia, no longuínquo 08 de Dezembro de 1983, em que, quando com meus recém-completados 7 anos de idade, não tive noção do quão histórico era aquele momento, mas que lembro com absoluta nitidez daquela manhã absolutamente sem nuvens.Te conheci um pouco de perto, tendo a possibilidade de conduzi-lo por algumas horas. Não tive a intimidade dos grandes amantes, mas tive sim, a oportunidade de ter um contato fugaz, porém intenso com suas asas, seus comandos, sua alma. Por um capricho do destino, quase lhe vi em sua última apresentação. Por muito, muito pouquinho mesmo, poderia ter visto-lhe na primeira, e na última....

Destino, esse caprichoso arquiteto das coincidências....

Mas não tem problema. Lhe conheci, voei contigo, chamei de você, me emocionei e chorei como aquela criança de 1983, quando decolei contigo e outros 6 pássaros numa manhã daquele mesmo lugar, 28 anos depois....

Sei que eu lhe vejo, não em forma, mas em pensamento. Talvez seja melhor estar longe, não sei. A emoção seria muita...

Mas, meu caro passarinho, saiba que sua missão foi cumprida.

Com louvor.


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